Onde tudo começou

Toda história tem um começo.

Quando olho para a minha, percebo que muito do homem que me tornei começou a ser construído dentro de uma casa simples, pelas mãos de uma mulher que precisou ser mãe e pai ao mesmo tempo.

Sou o filho caçula de cinco irmãos. Ainda era bebê quando meu pai, por causa da bebida, deixou minha mãe. A partir daquele momento, nossa vida se tornou ainda mais difícil. Minha mãe precisou trabalhar muito para criar sozinha os cinco filhos.

Não foi uma vida de facilidades. Mas foi uma vida de ensinamentos. Minha mãe era uma mulher de muita fé, perseverança e coragem. Eu costumava enxergá-la como uma leoa protegendo seus filhotes. Ela nos criou com austeridade, é verdade, mas nunca faltaram amor, carinho e proteção. Dentro das possibilidades que tinha, procurou nos dar estudo, educação e, acima de tudo, ensinou-nos a ter fé.

Ela queria que seus filhos conhecessem um Deus que, segundo ela, jamais nos abandonaria. E havia uma coisa que ela fazia questão de nos ensinar: agradecer. Nossa mesa muitas vezes era simples. Podia haver apenas feijão com angu. Mas, antes de comer, minha mãe fazia questão de que cada um de nós agradecesse a Deus pelo alimento que estava à nossa frente.

Hoje, muitos anos depois, percebo a profundidade daquele ensinamento. Talvez tenha sido ali, naquela mesa simples, que começou a nascer dentro de mim uma pergunta que me acompanharia por toda a vida:

Quem é esse Deus em quem minha mãe confiava tanto?

A Bíblia entrou na minha vida

Assim que aprendi a ler, a Bíblia passou a ser um livro que estava sempre por perto. Eu tinha curiosidade de conhecer aquelas histórias. Ficava fascinado com seus personagens, com suas escolhas, suas dificuldades, suas vitórias e suas quedas. Muitas vezes me imaginava vivendo naquele tempo, caminhando por aqueles lugares e convivendo com aquelas pessoas.

Eu não sabia, naquela época, que aquele livro seria tão importante na minha vida. Também não sabia que, muitos anos depois, eu voltaria a essas mesmas histórias de uma maneira diferente.

Quando somos crianças, muitas vezes lemos uma história apenas como uma história. Quando a vida passa por nós, começamos a perceber que algumas daquelas histórias também falam de nós.

Foi assim que a Bíblia começou a fazer parte da minha caminhada. Não como um livro distante, mas como uma presença constante.

Crescendo com o que minha mãe ensinou

Cresci naquele ambiente de disciplina, trabalho, amor familiar e fé. Minha mãe não tinha riquezas para nos oferecer. Mas nos deixou algo que, olhando para trás, considero muito maior: ensinamentos que nos ajudaram a atravessar a vida.

Os cinco filhos cresceram e seguiram seus caminhos. E minha mãe conseguiu aquilo que, para ela, certamente era uma das maiores vitórias que uma mãe poderia alcançar: nenhum de seus filhos escolheu um caminho que pudesse destruir a própria vida.

A fé que ela nos transmitiu, seus ensinamentos e sua perseverança foram uma espécie de alicerce que manteve nossa família unida. Hoje compreendo que algumas heranças não cabem em uma conta bancária. Há heranças que passam de uma geração para outra através de palavras, exemplos e atitudes.

Minha mãe deixou essa herança para nós.

A família que Deus me permitiu construir

Terminei o ensino médio já adulto, trabalhando.

Casei-me com uma mulher que considero um presente de Deus para a minha vida. Mais tarde, cheguei a iniciar uma faculdade, mas não consegui concluí-la porque, naquela época, minha esposa ficou grávida da nossa primeira filha.

A vida seguiu seu curso. Tivemos dois filhos. Depois vieram os netos. E, mais tarde, os bisnetos. Hoje tenho quatro netos e quatro bisnetos. Quando olho para essa família, percebo o quanto a vida caminhou desde aquela casa simples onde minha mãe criava cinco filhos.

E há uma lembrança que ocupa um lugar muito especial dentro de mim: foram 47 anos de companheirismo e parceria ao lado da mulher que Deus colocou em minha vida como aquela que seria a minha metade, aquela que estaria sempre ao meu lado me ajudando em minha caminhada. Aquela que eu amaria por toda a minha vida.

Ela partiu, deixando uma saudade enorme. Existem ausências que o tempo não consegue apagar. Mas, junto com a saudade, permanece em mim a certeza de que nossa união foi uma dádiva de Deus. E quando olho para os meus bisnetos, vejo algo que talvez seja difícil explicar apenas com palavras.

Vejo continuidade. Vejo a vida seguindo. Vejo neles um pouco da história que começou muitos anos antes, quando uma mulher trabalhava incansavelmente para criar cinco filhos e, mesmo tendo tão pouco, fazia questão de ensiná-los a agradecer a Deus pelo alimento que estava sobre a mesa.

Quando olho para trás

Hoje, olhando para toda essa caminhada, consigo perceber algo que talvez eu não conseguisse enxergar quando era mais jovem.

Deus sempre esteve presente na minha vida.

Esteve quando eu ainda era criança. Esteve naquela casa simples. Esteve nas dificuldades, nas conquistas. Esteve no casamento, na chegada dos filhos, dos netos e dos bisnetos. Esteve também nos momentos em que eu tive medo, errei, me perdi em meus próprios pensamentos ou achei que conseguiria caminhar apenas com minhas próprias forças.

A diferença é que nem sempre eu tinha consciência disso. Talvez essa seja uma das grandes descobertas que a vida nos proporciona. Às vezes, passamos muitos anos procurando Deus em acontecimentos extraordinários, quando Ele já estava presente nas pequenas coisas que formavam os nossos dias.

Hoje consigo olhar para trás e enxergar Sua presença em muitos lugares onde, naquele momento, eu não a percebia. Consigo enxergá-la na perseverança da minha mãe. Naquela mesa simples. Na Bíblia que estava sempre ao meu lado.

Na mulher que caminhou comigo durante 47 anos. Nos filhos que chegaram. Nos netos. Nos bisnetos. E em tantas outras lembranças que ainda fazem parte da minha história.

Talvez seja por isso que hoje eu não consiga contar a minha vida sem falar de Deus. Não porque todos os caminhos tenham sido fáceis. Não foram. Mas porque, olhando para trás, vejo que nunca caminhei sozinho.

E essa percepção talvez seja uma das razões pelas quais este blog existe. Quero voltar às histórias que tanto me fascinavam quando eu era criança. Quero olhar novamente para os personagens da Bíblia.

Mas agora existe uma diferença.

Hoje, depois de tantos anos vividos, talvez eu consiga perceber que, enquanto eu imaginava viver as histórias daqueles personagens, a minha própria história também estava sendo escrita.

E, em cada capítulo dela, Deus estava presente. Mesmo quando eu ainda não sabia perceber.

Essa é a história que quero começar a contar. 

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