Quando o homem procura um culpado

 



A história de Adão e Eva não fala apenas sobre uma árvore, um fruto ou uma desobediência ocorrida no começo da história humana. Ela fala também sobre nós.

Deus havia estabelecido um limite. Havia dito ao homem que não comesse do fruto daquela árvore. A ordem era clara. Não havia dúvida sobre aquilo que Deus havia determinado.

Mas veio a tentação.

A serpente colocou em dúvida aquilo que Deus havia dito, e o desejo de possuir aquilo que havia sido proibido acabou falando mais alto. Eva tomou do fruto e comeu. Depois deu também a Adão, que estava com ela, e ele comeu.

A desobediência havia acontecido. E com ela vieram consequências que atingiram muito mais do que aquele momento. Os olhos dos dois se abriram, perceberam que estavam nus e procuraram cobrir-se. Depois, quando ouviram a voz de Deus no jardim, esconderam-se.

O medo havia entrado onde antes havia comunhão.

Deus então perguntou:

“Onde estás?”

A pergunta é uma das mais conhecidas de toda a Bíblia. Mas talvez exista algo ainda mais profundo nela.

Deus sabia onde Adão estava.

A pergunta não era para que Deus descobrisse a localização do homem. Era uma oportunidade para que Adão reconhecesse a própria condição. Adão estava escondido. Estava com medo. Estava envergonhado.

E, acima de tudo, havia desobedecido.

Deus então perguntou se ele havia comido da árvore que recebera ordem para não comer. E é justamente nesse momento que aparece outro comportamento muito conhecido do ser humano: a procura por um culpado.

Adão poderia simplesmente ter dito: “Sim, eu desobedeci.” Mas sua resposta foi:

“A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi.”

Observe que Adão não apenas aponta para Eva. Ele acrescenta: “a mulher que me deste”. Como se dissesse: o problema não foi somente meu. Houve alguém envolvido. E, de certa maneira, até Deus poderia ser responsabilizado pela existência daquela mulher.

Eva, por sua vez, também não assume inteiramente a responsabilidade: “A serpente me enganou, e eu comi.”

É interessante perceber como a sequência se estabelece. Primeiro, a desobediência. Depois, o medo. Em seguida, a vergonha. E então a tentativa de transferir a responsabilidade.

Talvez essa seja uma das partes mais atuais de Gênesis 3.

Quantas vezes, quando erramos, procuramos alguém para colocar ao nosso lado no banco dos culpados?

Foi ele. Foi ela. Foi a situação. Foi o momento. Foi porque alguém me provocou. Foi porque fizeram isso ou aquilo comigo.

E, quando não encontramos ninguém a quem responsabilizar, algumas vezes chegamos até mesmo a questionar Deus.

Por que Deus permitiu? Por que Deus não impediu? Por que Deus não fez diferente?

Não estou dizendo que todas as situações da vida possam ser explicadas dessa maneira. Existem sofrimentos que não provocamos e situações pelas quais não somos responsáveis. Mas Gênesis 3 nos mostra algo sobre a natureza humana que continua muito presente: temos dificuldade de reconhecer nossos próprios erros. E talvez seja por isso que essa história seja tão desconfortavelmente próxima de nós.

Ninguém é melhor do que ninguém diante da própria condição humana. Existem pessoas que se destacam pelo caráter, pela honestidade, pela capacidade de reconhecer seus erros e pela disposição de mudar. Outras acabam se destacando justamente pela falta dessas qualidades — e o estrago causado por isso pode alcançar outras pessoas, famílias e até gerações.

O que faz a diferença não é a ausência de erros. É a maneira como lidamos com eles. Um erro pode ser reconhecido. Uma mentira pode ser confessada. Uma atitude pode ser corrigida. Um caráter pode ser transformado.

Mas, quando a pessoa se recusa a reconhecer o próprio erro, começa a construir justificativas para protegê-lo. E uma mentira pode exigir outra mentira. Uma desculpa pode exigir outra desculpa. Uma acusação pode gerar outra acusação.

Assim, aquilo que começou aparentemente pequeno pode produzir consequências muito maiores do que imaginávamos.

Talvez seja por isso que não devamos olhar para a desobediência de Adão e Eva apenas como um acontecimento distante, pertencente aos primeiros capítulos da Bíblia. Ela também nos convida a olhar para dentro de nós. Porque pecado nem sempre começa aos nossos olhos como algo grandioso.

Às vezes começa justamente naquilo que parece pequeno. Uma mentira que julgamos inofensiva. Uma desobediência que consideramos sem importância. Uma palavra que não deveríamos ter dito. Uma atitude que preferimos esconder. Uma pequena concessão que, naquele momento, parece não ter valor suficiente para causar qualquer consequência.

Mas o problema não está apenas no tamanho que damos ao erro. Está também em quem estabeleceu o certo e o errado.

Deus é justo.

E, ao mesmo tempo, a Bíblia apresenta Deus como aquele que ama o ser humano. Essas duas verdades não precisam ser colocadas uma contra a outra. O amor de Deus não transforma o erro em acerto. E a justiça de Deus não significa ausência de amor.

Em Gênesis 3, Deus não ignora aquilo que aconteceu. O pecado produz consequências. O homem e a mulher precisam enfrentar aquilo que fizeram e deixam o jardim do Éden. Mas existe algo que chama minha atenção nessa história. Mesmo depois da desobediência, Deus continua falando com o homem.

Ele pergunta: “Onde estás?”

Talvez essa pergunta atravesse os séculos justamente porque não é apenas uma pergunta dirigida a Adão. Ela também pode chegar até nós.

Onde estamos quando erramos? Onde estamos quando sabemos que fizemos aquilo que não deveríamos ter feito? Onde estamos quando preferimos esconder o erro em vez de reconhecê-lo? Onde estamos quando procuramos culpados para não precisarmos olhar para dentro de nós?

E talvez a pergunta mais difícil seja esta: Será que temos coragem de dizer simplesmente: “Eu errei”?

Adão e Eva nos mostram o começo de uma realidade que acompanharia a humanidade: o ser humano peca, sente as consequências do pecado e muitas vezes tenta fugir da responsabilidade. Mas também nos mostram que Deus continua chamando. Continua perguntando. Continua se relacionando com o ser humano mesmo quando ele tenta se esconder.

É por isso que Gênesis 3 não é apenas uma história sobre a queda. É também uma história sobre a condição humana. Sobre desobediência. Sobre medo. Sobre vergonha. Sobre culpa. Sobre responsabilidade.

E sobre a dificuldade que temos de reconhecer que, muitas vezes, o problema não está apenas nas circunstâncias que nos cercam. Às vezes, precisamos parar de apontar para os outros. Precisamos parar de procurar um culpado. Precisamos parar de tentar justificar o injustificável. E ter coragem de olhar para dentro de nós mesmos.

Porque talvez o primeiro passo para sair do esconderijo seja justamente reconhecer diante de Deus aquilo que somos.

Não somos perfeitos. Não somos melhores do que os outros. Somos seres humanos sujeitos ao erro e ao pecado. Mas também somos seres humanos que podem reconhecer seus erros, buscar perdão e permitir que Deus transforme aquilo que precisa ser transformado.

E talvez seja justamente aí que aquela antiga pergunta continue fazendo sentido: “Onde estás?”

Não apenas: Onde você está? Mas: Onde está o seu coração? O que você está tentando esconder? De quem você está tentando se esconder?

E, principalmente: Você está disposto a parar de procurar culpados e assumir aquilo que precisa ser assumido?

Gênesis 3 começa com uma desobediência. Mas a história não termina apenas com o homem escondido entre as árvores. Deus ainda estava ali.

E continuava chamando.

Nenhum comentário:

Postar um comentário